veraferro

Trechos da crítica de Carlos Chenier sobre as obras de Vera Ferro, da série:

Um Discurso ao Abandono

Transpondo um motivo regional para uma visão universal, conta visualmente de boa maneira pictórica uma trajetória do esplendor e do abandono das estradas de ferro e a sua desértica, assustadora e conformada presença pelo interior paulistano antes efervescente da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro...,agora , em abandono.

Temática e tecnicamente, os trabalhos de Vera Ferro são bem resolvidos. Não há exibição de virtuosismo, há uma lenta narrativa com planos que seriam enquadramentos fotográficos de momentos vivenciados pela artista na sua pesquisa. Não faz um discurso “modernoso” e não passa pelo acadêmico. Fica em uma figuração própria, controlada pelo espírito do fantástico, recriando em cima dos elementos da composição novas situações.

...No tratamento da tinta sobre o desenho, há um indisfarçável momento, em todas as telas, que atende ao lado de clima possivelmente saudoso ou possivelmente absurdo.

...Há nas locomotivas o presságio de números e grafias. Há um 222, um 246, um 505, uma captação na magia das antigas numerações que representavam vida, fumaça, agitação, movimento, comércio, o que momentaneamente são enigmas....

...A paisagem ferroviária de Vera Ferro é, digamos, uma paisagem do exagero. Há uma dimensão no questionamento da solidão e do abandono em sua obra. Em todos os trabalhos pode haver idéia de movimento, mas no todo, tudo está profundamente decadente, respirando solene passado. E é nessa captação dessa atmosfera mudada pela intenção da artista que está a beleza e a força da obra.

Carlos Chenier Jornal “A Gazeta” - Vitória, abril de 1988.