veraferro

Coerente olhar plástico

A maior busca de um artista está em conseguir uma impressão digital que permeie a maior parte de sua obra. Não se trata de um instante de vaidade, mas sim da manifestação coerente de um discurso sobre o mundo. Trata-se de uma poética que dialoga com cada série construída a partir das mais diversas motivações.

Nascida no Rio de Janeiro em 1947, mas radicada em Campinas, SP, Vera Ferro obtém essa vertente comum, embora se manifeste com variadas linguagens, principalmente a tinta a óleo, a aquarela e as colagens. Há nelas uma unidade presente na preferência pela sutileza das transparências e das cores rebaixadas.

Seja na construção de uma série sobre cordumes de veleiros ou nas imagens de ferramentas construídas a partir de fotografias e trabalhos em aquarela de instrumentos de seu falecido pai, ela consegue um mesmo efeito encantador pela maneira como porcas, parafusos, alicates e tesouras se articulam, traspassam e interpenetram.

A mesma proposta visual se faz presente nas obras inspiradas na cultura da Índia, de preferência naquelas em que a letra tem um valor primordial. A escrita de mantras atinge um primor técnico de modo que passa a se tornar imagem, num processo que resulta de aprimorada busca e conquista de recursos plásticos.

A criação de pensamentos visuais em O homem medieval contemporâneo, que lida com a analogia entre a segurança das armaduras, castelos e fossos medievais e a insegurança latente dos condomínios fechados, e em Cartas de amor em tempos de guerra, que parte de uma relação real entre apaixonados de 1917 a 1919, discute uma mesma poética, a da capacidade de sugestão superando o explícito.

É no implícito ainda que diversas obras de Vera Ferro atuam no mundo das cartografias reais e imaginárias. No processo de colagem de mapas e na sua pintura, aparece um mundo irreal, mas de ampla coerência interna, no qual duas obras se destacam: as que homenageiam Hamlet e Ofélia, célebres personagens de Shakespeare.

As tragédias que os unem, a da inadequação e da morte que os mitifica, encontram também ressonância no mergulho que a artista faz com crianças desaparecidas. As diferentes maneiras de lidar com esses retratos, em diversos suportes, alerta para a mesma questão que mobiliza a criadora carioca: a da impermanência.

Como um todo, o mundo visual de Vera Ferro apresenta uma intensa delicadeza para falar de duras realidades: a morte, a passagem do tempo e a solidão humana ganham diversas metáforas, que se consolidam por recursos plásticos tecnicamente utilizados com maestria, como a mencionada procura da transparência e a construção de uma poética lírica, mas que não perde a contundência de um sempre renovado e coerente olhar plástico sobre o mundo.

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil). 2009